33 Copiapó a Fiambalá Paso San Francisco (43)

O maior desafio da Cordilheira…. Paso San Francisco!!!

16.12.2010
Copiapó – Ch – Fiambalá – Ar
Paso San Francisco

O dia amanhecia em Copiapó quando Jorge e Andréa já se preparavam para a parte mais arriscada e o trecho mais difícil da viagem. No dia anterior haviam comprado, no supermercado, as guloseimas do café da manhã, já que, como em todos os hotéis, o café é servido após as 7:30h e tinham programado a saída para as 7h. O que ocorreu conforme planejado.
Jorge estudou e leu muito a respeito do Paso San Francisco, antes de decidir atravessar a Cordilheira por ele, mas é melhor deixar ele mesmo explicar…
Depoimento Jorge:
“Ao menos para mim, este era o dia mais aguardado de toda a viagem. Seria minha primeira experiência no temido “rípio”.
Li vários relatos de outros motociclistas que passaram pelo fantástico Paso de San Francisco, e um em especial me encorajou a fazer este caminho. Nele, um motociclista que fez a viagem completamente sozinho, dizia ser mamão com açúcar este rípio, por ele ser bem compactado.]
Mas havia um outro probleminha a ser resolvido: como percorrer a distancia de 470 km entre o ultimo posto de abastecimento em Copiapó (no Chile) e o próximo posto, em Fiambalá, já na Argentina? Não sei se pelo peso, ou pela resistência que as malas laterais exerciam ao vento forte que enfrentamos nos últimos dias, ou até se era pela gasolina que era muito boa e a injeção eletrônica da moto não estava regulada para esta gasolina e sim para a porcaria da nossa gasolina misturada a álcool e todo tipo de solventes que colocam nela, mas a verdade é que a moto estava fazendo uns 14 km/L na média, o que me dava uma autonomia de uns 300 km no máximo. O jeito foi comprar um galão de plástico de 10 lts da Copec, facilmente encontrado em qualquer posto de abastecimento desta marca, e amarrar onde fosse possível na moto.
Como já não havia muito espaço disponível para bagagens, o jeito foi amarrá-lo sobre uma das malas laterais e rezar muito para o suporte desta mala não quebrar, visto que elas já estavam trabalhando muito além do peso máximo recomendado pelo fabricante desde o inicio da viagem. Como podem ver na foto, a moto mais parecia um caminhão de mudança… rsrsrsrsrsrsr”

 

O Paso começa na cidade de Copiapó, onde se encontra o último posto de abastecimento antes de sua passagem, por isso, os motociclistas devem se prevenir levando um galão extra para evitar ficar sem combustível durante a travessia, o que não seria nada interessante se pensarmos que a altitude, o frio e a ausência quase total de pessoas podem ocasionar um “desastre” durante a viagem.
O início do Paso San Francisco leva a uma mineradora, que fica a cerca de 80 km de Copiapó, o que ocasiona o encontro com diversos caminhões, picapes e outros veículos. Este trecho tem um rípio bem compactado, que possibilitou uma velocidade média de 90 km/h, sem grandes dificuldades e que animou o casal, que acreditava que a estrada iria transcorrer desta forma durante todo o percurso.
O Paso San Franciso é uma das passagens mais importantes da Cordilheira dos Andes, liga a região do Atacama no Chile à província de Catamarca, na Argentina, e atravessa cumes nevados e de grande beleza e altura. O ponto mais alto da passagem chega a 4.750 m.s.n.m., contudo conta com vulcões que chegam a mais de 6.800 m.s.n.m.
Durante o início da passagem, puderam apreciar o Deserto Florido, do qual falamos no capítulo anterior, campos de flores coloridas; mas ainda era só o começo da beleza que os aguardava.
Depoimento Jorge:
“Até chegar à entrada da mineradora o rípio estava muito compactado mesmo, acho que pelo peso dos caminhões que circulavam por ali, mas depois que passamos dela a coisa foi ficando complicada. O tal rípio foi se transformando num areião misturado a pedras e já não era possível desenvolver uma boa velocidade. Vez ou outra a moto escapava de frente e era difícil controlá-la. O perigo de uma queda estava aumentando consideravelmente. Lembrei-me do tal mamão com açúcar e pensava: acho que aquele cara não gosta de mamão…”

 

Historicamente estas colinas sempre tiveram um papel de protagonista já que foram usadas como vínculo entre os povos diaguitas de um lado e outro da Cordilheira dos Andes, em 1479 o Paso San Francisco foi utilizado pelo inca Túpac Yupanqui para invadir o território chileno e em 1536 foi atravessado por Diego de Almagro para passar de Tucumán ao Chile. Somente após 1898 que se definiram os limites argentino-chileno no Paso San Francisco.
Conta-se que os aborígenes que viveram na região antes dos Incas, já utilizavam esta rota em seus movimentos migratórios, a cerca de 10 séculos atrás.
É possível ver algumas ruínas incas durante o trajeto, que dão ainda mais emoção à aventura. Dizem que são ruínas das mineradoras incas.

Foram necessárias algumas paradas para relaxar e apreciar as paisagens. No início era possível Jorge descer da moto e se esticar, mas a partir do trecho onde o rípio começa a se soltar e se misturar à areia, as paradas passam a ser apenas para descansar da pilotagem, pois ficava impossível descer da motoca, não tinha terreno firme para apoiá-la.

Novamente o casal teve que fazer suas necessidades fisiológicas no deserto, torcendo, de novo, para ali nascer uma plantinha.

O Paso é de uma paisagem excepcional devido aos seus grandes vulcões, cobertos de neve, mesmo no verão, e as lagunas que se escondem em suas curvas. Incluem, ainda, refúgios de vida animal, principalmente as vicunhas, que são vistas por seus vales floridos.

Ao chegar à Aduana Chilena, que fica isolada no meio da Cordilheira, se pode avistar a chamada Laguna Azul, Laguna Santa Rosa, no Salar de Maricunga que possui 8300 hectares e fica a uma altitude de 3.700 m.s.n.m., é um dos maiores produtores de lítio do Chile, perdendo apenas para o Salar de Atacama.

O frio era intenso, então pararam para comer e beber água sob o sol, que ajudava a aquecer, principalmente as mãos sem luvas.

Passaram pela Aduana Chilena sem qualquer dificuldade, mas foi preciso esforço para não desmaiar quando um dos funcionários informou que a aduana Argentina, onde começaria o asfalto, ainda estava a cerca de 200 km à frente… O casal se entreolhou e não sabiam se riam ou choravam, de fato não sabiam se iam conseguir superar mais este trecho, Jorge estava exausto e Andréa muito preocupada, mas não deixou de filmar e fotografar!!! Afinal, as paisagens compensavam tamanha inquietação.

O Salar faz parte do parque Nevado Tres Cruces, nome do vulcão que domina a paisagem. O parque é um maciço montanhoso da Cordilheira dos Andes, que fica na fronteira entre Argentina e Chile, localiza-se entre os 3.800 e 4.100 ms.m.n.m. Seus principais cumes são, o Internacional ou Cume Sul de 6.749 m, o Cume Central de 6.008 m, o Cume Norte, de 6.629 m e um quarto cume, ao norte do terceiro, com cerca de 6.300 m.

Seguiram viagem, mal sabendo eles que paisagens mais belas e surreais ainda estavam por vir.

Depoimento Andréa: “O azul do céu, a vegetação rasteira em amarelo, misturado ao cinza escuro dos vulcões, com seus cumes brancos pela neve, dão a sensação de que estamos em outro planeta, outra dimensão, em certos momentos parece que estamos olhando um livro, uma imagem que não existe, parece um sonho daqueles em que as cores se confundem, é algo impressionante. Nem o medo de não chegar conseguiu ofuscar tamanha beleza. O Jorge ia pilotando com cuidado, às vezes parecia que íamos cair, mas eu não conseguia parar de fotografar, nem sei onde encontrei coragem e força para isto!”.

Após passar a aduana Chilena, se está fora do mundo, isto mesmo, não estão nem no Chile, nem na Argentina, já que se viaja em uma zona “sem lei”, pois a aduana Argentina fica a mais de 200 km. Andaram cerca de 170 km por uma estrada horrível, onde o rípio estava mais que solto entre um piso de areia, trazendo enorme dificuldade de manter a moto em pé e com a probabilidade de inúmeras quedas, inclusive com um grande susto, que Jorge irá relatar melhor.

 

Depoimento Jorge:
“A estrada se transformou num areião fofo que escondia pedras de todos os tamanhos. A pilotagem da moto estava ficando extremamente difícil, e eu já estava no limite das minhas forças. A velocidade agora era de 25 kms/h e nesta velocidade eu não fazia idéia de como estava o consumo de gasolina e se o galão seria suficiente para completarmos o percurso até o próximo posto de serviços. Ah, e ainda tinha o frio cada vez mais intenso e a preocupação com os suportes das malas laterais não agüentarem o peso e a vibração das batidas da suspensão contra as pedras da estrada. Eu só lembrava do maldito mamão com açúcar… Num determinado momento a moto saiu completamente com a roda dianteira e eu tentando a todo custo controlar a situação e reduzir a velocidade para diminuir o impacto da queda, que parecia iminente. Balançamos várias vezes pra os dois lados e consegui parar a moto Deus sabe como, mas ela parou inclinada a 45 graus e eu não tinha forças para levantá-la. Gritei para a Andrea sair da moto para aliviar o peso e vi ela se jogando no chão e rolando para o lado. Rapidamente ela levantou-se e me ajudou a levantar a moto para a posição em pé. Se a moto tombasse de vez não teríamos forças para levantá-la e como não passava ninguém por ali, estaríamos em sérios apuros. Tudo o que eu queria naquela hora era descer da moto e poder deitar no chão para descansar um pouco, mas o piso era tão fofo que o pezinho da moto afundava, me obrigando a ficar sobre ela. A falta de ar que senti devido ao esforço extremo me fez pensar que talvez eu fosse apagar ali mesmo, em cima da moto, e tive de me contentar em deitar sobre o tanque dela e ficar ali quieto até recuperar as forças para prosseguir.”
33 Copiapó a Fiambalá Paso San Francisco (53)
Diante de todas as dificuldades contadas, em meio a uma paisagem cinza, característica do deserto, eis que surge um oásis, uma lagoa de um verde inexplicável.
A Laguna Verde, localizada a 265 km da cidade de Copiapó, na Província de Catamarca, fica aos pés do maior vulcão do mundo, Pissis (foto ao lado e abaixo), que chega a 6.882 m.s.n.m., é uma lagoa hiper salgada no meio das montanhas, suas águas encontram-se a 4350 m.s.n.m.

 

Este lago é aparentemente desprovido de vida, por causa de sua extrema salinidade, que são caracterizados por uma bela cor verde cerúleo. Encontra-se em um vale profundo, quase circular, cercado por sete dos 12 maiores vulcões do mundo, cujos picos são cobertos de neve, mesmo no verão, entre eles estão o Ojos Del Salado (na foto abaixo) (6.879 m.s.n.m.), o Incahuasi Nevado (6.610 m.s.n.m.), El Muerto (6.488 m.s.n.m.), Ata (6.501 m.s.n.m.), Os Nascimentos (6.669 m.s.n.m.), o Cerro Bayo (6.436 m.s.n.m.), Solo (6.205 m.s.n.m.) e Nevado Tres Cruces (6.749 m.s.n.m.), este pode ser visto desde o início do paso. Neste ponto do paso as temperaturas registradas já foram de 20º.negativos.

Cerca de 10 km depois de passar por esta beleza monumental, chegaram ao Limite Internacional, enfim ASFALTO!!
Depoimento Jorge:
“Agora eu entendi porque nos relatos de vários motociclistas que enfrentaram o Paso de San Francisco eles param sob esta placa da foto ao lado e beijam o inicio do asfalto. Só não fiz o mesmo porque se eu descesse da moto não teria forças para subir nela novamente, hehehe…”

 

As paisagens continuaram, por todo o caminho, com uma beleza que impressiona.

 

Chegaram à Aduana Argentina exaustos, Jorge não conseguia nem falar, desceu da moto e se jogou no chão, funcionários e carabineros saíram para saber se os viajantes estavam bem. Ficaram preocupados com a situação em que o piloto se encontrava. Andréa foi quem conversou, entregou documentos solicitados e adiantou os trâmites para passagem, sem qualquer dificuldade.

 

Depoimento Andréa:
“Continuamos pela estrada, agora bem asfaltada, pensando que o visual se tornaria comum, puro engano, mais imagens belíssimas, como que retiradas de um quadro surgiam a cada curva de uma serra esplêndida, criada para completar a passagem do Paso San Francisco pela Cordilheira dos Andes, que ia ficando para trás e já deixava saudades. A cor dourada que cobria os vales, à beira dos vulcões gigantes, misturada ao branco da neve e ao céu de um azul incansável, criaram imagens que tenho certeza que não conseguirei esquecer jamais!”.
Nas belas e pavimentadas estradas após a aduana Argentina podem ser vistos vários refúgios, como se fossem pequenas casas, com rádio de emergência, lugar para fazer fogo.
Chegaram a Fiambalá por volta das 19h, após transpor 300 km de ripio em 7 horas, estavam mais que exaustos, não tinham forças nem para pensar. Ficaram na Hosteria Municipal. Jantaram no único restaurante local, com cara de restaurante, como estavam com muita fome, decidiram pedir dois pratos de filé a parmegiana e purê de “papas”, mas tinham esquecido da fartura dos pratos na Argentina, quando os pratos chegaram só tinham força para rir do tamanho do bife que teriam que encarar… e comeram quase tudo!!!
Ao deitar na cama, o casal não acreditava no dia que havia tido, nas emoções, imagens, situações críticas que vivenciaram. Só então perceberam que haviam feito um pacto silencioso durante o trajeto, não conversando sobre nada, relaxados (e a salvo!) falaram sobre o percurso; assumindo o quanto de medo sentiram durante a travessia do belo, mas perigoso, Paso San Francisco.
Aproveite um pouco mais desta beleza….

Para conhecer mais:
Total de Km Rodados: 490
Abastecimento: 24 litros
Hospedagem: Hosteria Municipal
Valor da diária: $ 150,00 pesos
03 Estrelas: arrumado, limpo, excelente localização, sem café da manhã
Gasto total (com alimentação): R$ 160,00
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3 opiniões sobre “O maior desafio da Cordilheira…. Paso San Francisco!!!”

  1. Parabéns pelo feito!!!

    Hj acabei de chegar do paso também, mas o vento e frio era muito e era dificil parar para tirar fotos, o vento empurrava a moto.

    A segunda parte da aduana chilena até a aduana argentina na fronteira, sao de 100km, que sao muito dificeis. Destes 100km, 15 de asfalto e 75 de muito ripio, pedras e areia misturado, quase cai 3x e atolei 3x nas verdadeiras caixas de brita. Nos trilhos dos carros era menos pior, mas o vento tirava e jogava a moto no ripio fofo, e da-lhe afudamento de frente e saida forte de trazeira para voltar!!!

    Mas, muito bonito!!!

    Recomendo com 2 motos, pois se cair, tem mais um piloto para ajudar, só um nao levanta.

    Vlw,
    MM

  2. Cara, fiz o Paso de San Francisco mes passado e vcs não omitiram nda, é isso mesmo!!Estavamos em 6 amigos e 4 compraram terreno, o cansaço era tanto que no final foi preciso de 3 para levantar um xt660, não tinhamos força para nada, exaustos e sinceridade eu dei o beijo na placa sem falar que precisei de oxigenio na Aduana da AR, faz parte. Parabéns é só quem passa sabe o que é, mas vale cada minuto, ano que vem vamos para fazer o sentido inverso e ir para o Peru, a gente se ve, como dizem: sentir o vento na cara e fazer parte da paisagem!!!

  3. Simplesmente Fantástico…
    …quanto tempo de antecedência vc planejou esta viagem ?
    gostaria muito de fazer uma viajem desta….qual o custo total para a viajem?
    (recebi este link de um amigo em comum José Queiróz)

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