Todos os posts de Aventuras em duas rodas

Jorge e Andréa são paulistas da Capital, casaram-se em 1994 e residem em Lauro de Freitas, cidade próxima à Salvador, Bahia, desde 2002. Ele, nascido em março de 1967, atua no setor automotivo com Design Gráfico; ela, nascida em novembro de 1970, Psicóloga e Professora Universitária. Este site irá contar suas histórias, sonhos e aventuras sobre duas rodas, suas emoções, os lugares desbravados e por desbravar, através de textos, fotos e vídeos.

Rumo ao “Fin del Mundo” en la “Tierra del Fuego” – Argentina

Rumo ao “Fin del Mundo” en la “Tierra del Fuego” – Argentina
 
Ainda não tivemos tempo de contar a aventura pelo Nordeste Brasileiro, mas teremos que fazer uma pausa e mudar só um pouquinho de direção…
 
No fim de Setembro, Jorge começou a pensar em fazer a “tradicional” viagem de fim de ano, aproveitando seu período de férias, que iria começar no início de Dezembro, porém Andréa não poderia acompanha-lo, pois suas férias só começariam em meados de Dezembro.
 
Jorge estava um pouco chateado em fazer a viagem sozinho, porém, pensando juntos, concluíram que poderiam organizar o roteiro de forma a se encontrarem pelo caminho.
 
E qual seria o caminho????? Para onde ir????
 
Após muito tempo pensando, Jorge decidiu retomar um roteiro guardado há tempos, decidiu realizar seu grande sonho, uma nova grande aventura: chegar ao “fin del mundo”, afinal, viajar de moto ao Ushuaia, na Argentina, é uma das maiores aventuras.
Tudo aconteceu meio de repente, sem muita antecipação, mas, sempre, com muita organização.
 
Começaram, então, os preparativos e a organização da viagem tão sonhada.
 
O roteiro foi uma das primeiras etapas a ser pensada, pois tinham que encontrar uma forma de se unir ao longo da aventura.
 
Jorge começou a pensar em como mandar a moto para São Paulo, como forma de diminuir o trajeto, já conhecido, e organizar as datas. Afinal, ainda queriam retornar a São Paulo a tempo de passar o Natal em família… Vamos ver se irão conseguir…
 
A princípio, ambos pensaram em se encontrar em Bariloche, até Andréa ver as imagens de Perito Moreno, famoso Glaciar da Patagônia Argentina:
 
“Estava quase tudo certo para nos encontrarmos em Bariloche, eu já procurava a passagem e estava conformada em seguir viagem a partir dali, até que Jorge me enviou umas imagens do Glaciar Perito Moreno. Fiquei imediatamente encantada e pensei: ‘preciso conhecer esse lugar’!!!  Em minhas buscas vi que havia aeroporto em El Calafate, cidade do glaciar. Neste momento decidi: ‘vou me organizar para encontra-lo por lá, não posso perder este lugar fantástico’” Andréa.
 
Outro fator importante: encontrar companhia, afinal Jorge estava um pouco apreensivo em ir sozinho até El fin Del mundo!!! (Embora todos nós saibamos que ele iria!!!) Foi então que Jorge conheceu Lucas Ladeia, um cara que trabalha na mesma empresa que ele. Trocaram algumas poucas informações e Lucas se entusiasmou e comprou a ideia de chegar ao fim do mundo também. Começaram a conversar e estreitar as ideias.
 
Jorge, como iria mesmo que sozinho, teve a ideia de alugar um SPOT, um equipamento de localização por satélite, assim Andréa poderia acompanha-lo de forma virtual e todo mundo ficaria mais tranquilo.
 
Por isso, se você quiser acompanhar a viagem em tempo real, clique no link abaixo:
 
Vale uma historinha pra começar: cerca de 10 dias antes de a aventura começar, Jorge torceu o tornozelo, de forma boba, em um caminho onde trabalha, por onde sempre passa, porém foi obrigado a imobilizar o pé com uma bota longa, andar de muletas e ficar com a perna pra cima, além das inúmeras compressas de gelo.
 
Chegou a dar um frio na barriga!
Será que a aventura precisaria ser cancelada?????
 
Passada uma semana, com todos os cuidados indicados pelo médico, o tornozelo estava bem melhor, a aventura poderia acontecer, porém Jorge terá que fazer fisioterapia na volta, rompeu um ligamento!!!
 
 
A aventura começou dia 28.11, com a viagem de Jorge de Salvador a São Paulo, de
avião.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Convidamos você para acompanhar mais este sonho e aventura sobre duas rodas conosco!!!
 
Seja bem-vindo(a)!!!!!
 
 

Antes de começar a aventurar-se

Antes de começar a aventurar-se
Como já foi dito antes, preparar-se para uma viagem longa é essencial se você quer realizar uma viagem tranquila e se o seu objetivo é realizar um sonho, evitando, ao máximo, sustos e preocupações, aproveitando cada momento apenas para curtir o passeio.
Já é sabido que viagens de moto podem ser realizadas de várias formas, com vários modelos de motos e com uma infinidade de diferenças, diferenças de tempo, de grana, de objetivo, de desgaste físico e mental, de lugares para conhecer, de coisas a fazer, etc. etc. Jorge e Andréa optaram por viajar de forma mais tranquila, menos exaustiva e desgastante, para isso, investem tempo pra se organizar e guardam uma grana, que gastam com roupas, hospedagens legais, alimentação e bebericação, pois o objetivo é se divertir, é curtir as férias anuais, sem passar “perrengues” pelo caminho.
Preparação para colocar as rodas na estrada…
Documentação
 
Esta parte é muito importante quando se pretende viajar para fora do país. Fazer um seguro que cubra a América Latina é algo que dá certa tranquilidade, pois caso a moto quebre ou ocorra algum acidente, sabemos que tanto moto quanto os viajantes chegarão ao Brasil, por via área ou terrestre, a depender do tipo de seguro e da distância da ocorrência.
Para circular na Argentina é preciso ter a Carta Verde, um seguro obrigatório exigido por lá. Normalmente as empresas de seguros resolvem isso com facilidade e por um preço justo.

Como Jorge iria passar pelo Chile
(mesmo que só por um pedacinho dele), verificamos que o país tem nova exigência, uma tal de SOAPEX (Seguro Obligatorio de
Accidente Personales para vehiculos motorizados con matricula extranjera, que pode ser adquirido no site https://www.magallanes.cl/venta/Index.aspx, de forma tranquila e segura. O pagamento pode ser feito com cartão de crédito e assim que contabilizado, o site libera a emissão do documento.

Revisão da moto
 
Toda viagem requer uma boa revisão do meio de locomoção que irá te carregar por quilômetros e quilômetros. Não economize e nem se deixe enganar pela economia do seu mecânico (mais adiante vocês entenderão por que).
Vocês verão que esta viagem teve alguns percalços por conta de uma “economia burra” do mecânico, que não trocou peças solicitadas por Jorge, acreditando estarem em perfeito estado. Peças que quebraram ao longo do caminho e acabaram atrapalhando um pouco a viagem.
Mas não podemos, de forma alguma, reclamar da Strom, temos que lembrar que esta é sua quarta longa aventura, terceira para fora do país e ela tem aguentado bem o tranco, pois em nenhuma outra viagem ela apresentou problemas mecânicos, e olhe que o peso que ela carrega é “bravo”, juntando os viajantes e as malas, deve suportar mais de 200 quilos. Realmente esta moto é valente!!!!
  
Equipamentos eletrônicos
 
Testar a máquina fotográfica, gravador, GoPro, GPS, também faz parte da preparação, afinal você não quer perder imagens inesquecíveis.
O GPS usado foi o Garmin velho de guerra e ele não decepcionou. Os mapas feitos no MapSource ficam excelentes e desta vez deram bem menos problema que na viagem do Uruguai.
Jorge pensou em gravar em voz, alguns momentos da viagem, vocês verão nos vídeos que no início ele fez isso, mas com os dias, desistiu da ideia, ideia que será retomada na próxima aventura.
A GoPro tem um cartão de memória de 8G, percebemos que o ideal é, no mínimo, o dobro, pois para fazer boas imagens é preciso qualidade melhor e isto acaba usando mais a memória. Mas aviso: se
puder comprar uma câmera com comandos menos manuais, mais “tecnos”, vale a pena investir nisso.
Arrumação das malas
 
Esta viagem foi atípica, pois cada um viajaria em um momento diferente, mas a bagagem já teria que estar pronta desde o início da viagem. Organizaram de forma que toda roupa necessária para a viagem fossem nas malas traseira e lateral e que Andréa levasse somente seu capacete e sua roupa de motociclista, ou melhor, de garupeira.
Como em viagens anteriores, pediram socorro aos bons sacos a vácuo. Desta vez, compraram sacos menores, sacos de tamanho médio e sem válvula (o ar é retirado se enrolando o saco), o que facilita bem a retirada do ar. Estes sacos ajudam a carregar mais roupas, principalmente as de inverno, que nesta aventura teriam que ser em maior quantidade, pois já sabiam que pegariam temperaturas bem baixas.
Aliás, vale a pena investir em poucas, mas boas, roupas de frio. Comprar segunda pele de qualidade pode ser uma boa saída. Desta vez, o casal também levou roupas ‘fleece’ que aquecem e diminuem a entrada de vento.
Os viajantes de moto sabem, mas a maioria das pessoas não faz ideia, do quanto é possível colocar dentro destas malas!!!!! Mas é sempre bom repetir: viajar de moto é uma grande forma de treinar o desprendimento material rsrsrsrsrsr
“Percebemos que podemos viver bem e com muito pouco e que não é preciso comprar “lembrancinhas” para levar um lugar contigo. As imagens que ficam em sua mente (e em sua máquina fotográfica), além do que vivenciam em cada momento da viagem, é que te fará lembrar pra sempre de onde esteve” – Andréa
Parceria
 

Jorge iniciaria a viagem sozinho, até que poucas semanas antes da viagem,  Lucas, um colega de trabalho, se animou em acompanha-lo. Ele iria de moto até São Paulo, onde encontraria Jorge, um dia antes do início da aventura. Tudo combinado e acertado. Porém, nunca terem viajado juntos e não conhecerem o ritmo de viagem um do outro trouxe algumas dificuldades.

Jorge teve que parar por 3 dias por causa de um defeito na moto e de comum acordo decidiram que Lucas continuaria solo. Dali em diante cada um seguiria seu próprio roteiro, em seu próprio ritmo.

São Paulo – SP – Concórdia – SC





Dia 30.11

São Paulo – SP – Concórdia – SC
860 KMs

 

  

Jorge e Lucas saíram de São Paulo por volta das seis e meia da manhã, começava a nova aventura!!!!!
 
 
  

A ideia, nesta primeira etapa, era parar em Porto União, mas como chegaram cedo, pois o ritmo de viagem foi bom, resolveram esticar mais um pouco e chegaram até Concórdia, em Santa Catarina.
 
 
 
 
Quem vai contar esta nova aventura pra vocês, a partir de agora, é Jorge.
 
 
 
 
 
  

Dia perfeito para viagem de moto.  Clima agradável, céu com nuvens que amenizam o sol, mas com muita claridade e sem chuvas. Perfeito. Junte isso às boas estradas do sudeste brasileiro e, como resultado, andamos mais de 850 kms numa boa. Logo na entrada da cidade de Concórdia encontramos um apart hotel arrumado e com bom preço.
 
Durante o trajeto percebi que a corrente da moto dava uns estalos quando reiniciava a andar, depois de alguma parada.
Parecia ter um elo engripado. Este problema na corrente já existia antes do início da viagem e a opção do mecânico foi de troca do pinhão e troca de “alguns gomos” da corrente, tentando aproveitar a corrente que ainda era relativamente nova.
 
Hotel Zanardi – Bom – Valor da diária: R$ 135,00
 
Gasto Combustível: R$ 150,00
 
Assista ao vídeo do primeiro dia de viagem!!!!!!!!!!!!!
 
 

Concórdia – SC – São Borja – RS

Dia 01.12 – Concórdia – SC – São Borja – RS – 565 KMs
 

O dia amanheceu bastante nublado, mas com temperatura amena, bom para andar de moto.

 
Antes de partirmos para a estrada eu fui até uma mecânica de motos para dar uma olhada na corrente e nada foi encontrado de errado. Depois de uma boa engraxada, ela parou de fazer o barulho.
 
Botamos o pé na estrada com esperança a pernoitar lá e fazer os trâmites de aduana e imigração logo cedo no dia seguinte, mas o dia não rendeu bem.
 
A combinação de chuva (durante quase todo o percurso), pista simples (sem duplicação) e o grande fluxo de caminhões fez com que o dia não rendesse o que esperávamos, de forma que não conseguimos chegar a Uruguaiana.

Paramos para pernoitar em São Borja, idade pequena, porém pareceu arrumadinha.
 
Achamos um hotel bom com um preço mais ou menos. Porém logo na chegada tivemos um problema sério. Enquanto tirávamos as coisas das motos e colocávamos no sofá da recepção, para poder levar tudo para os quartos, o telefone celular do Lucas (que também servia de câmera fotográfica, GPS e meio de comunicação com a família) desapareceu. Procura daqui, procura dali, e nada. Deve ter sido roubado por alguém que estava passando pelo saguão de entrada naquele momento em que estávamos distraídos pegando as coisas nas motos. Lucas ficou muito chateado, e com razão. Fazer o quê? Bola pra frente…
 
Depois do merecido banho quente, desci e tomei um sopão servido no próprio hotel. Lucas estava tão puto que nem jantou.
 
Hotel Obino – Muito bom – Valor da diária: R$ 124,00
Gasto Combustível: R$ 100,00 

Foram poucas imagens…que você poderá ver na próxima postagem, junto com o terceiro dia!!!!

São Borja – BR – Zárate – AR

Dia 02.12

São Borja -RS – Zárate – AR
686 KMs
 
 
Dia confuso. Assim eu posso resumir bem o que foi o terceiro dia desta viagem.
 
 
Depois de um ótimo café da manhã no hotel (coisa de que sentiríamos falta daqui por diante na Argentina), saímos já com chuva de São Borja, procurando um posto de abastecimento.
 
Ontem, chegamos tão cansados, molhados, sujos e querendo logo um bom banho que nem nos preocupamos em abastecer as motos.
 
Lucas ainda estava bastante aborrecido com o roubo do celular dele.
 
Saímos da pequena São Borja sem avistar nenhum posto de gasolina. Pensei com meus botões: ‘na estrada deve ter algum, provavelmente logo no trevo de entrada/saída da cidade’. Estava errado…
 
Depois de rodar 80 kms, sem ver absolutamente nada além de floresta e mato, a XT parou: pane seca!
 
Vale a pena citar aqui que, até então, este burrão que vos escreve não sabia que era possível pesquisar os postos de combustível no GPS! “Pontos de interesse: o que é isso???”… Como pode, né?!?…
 
Ah, vale a pena citar também que Lucas, já sabendo que a autonomia da XT é quase a metade da V-Strom, estava levando consigo um tanque reserva de 10 litros. Pena que ainda estava vazio…
 
E foi assim que os dois abestalhados resolveram fazer o óbvio: Lucas ficar lá na estrada parado, debaixo de garoa, enquanto eu ia seguir adiante à procura do líquido precioso.
 
17 quilômetros depois, eu encontrei um posto de gasolina e lá comprei um galão extra de 5 litros para minha própria reserva de segurança.
 
Entre parar sem gasolina na estrada e continuar a viagem, já com as duas motos e seus respectivos galões abastecidos no posto, se
passaram 1h30m, de atraso.
 
Chegamos à aduana ao meio dia. Estacionamos as motos próximas da fila de imigração e lá vamos nós com os documentos em mãos. Entre aduana e imigração não se passaram mais de 15 minutos. Sensacional!
 
Quando fomos pegar as motos no estacionamento, um cara, dentro de um Renault ‘véio’ pra cacete, me chamou pra perto da janela do carro e perguntou se eu queria “cambiar” reais por pesos. Fiquei desconfiado e disse para ele que não precisaria.
 
 
Na verdade iríamos trocar uma boa quantia de reais por pesos, pois o peso argentino, desvalorizado como está, é propício para este tipo de troca para quem vem com reais. Dessa forma, pagando tudo em “efetivo” (como eles chamam pagamento em dinheiro), a viagem sairia uns 30% mais barata para nós.
 
 
Saímos da aduana, abastecemos e tomamos um lanche rápido no posto Esso que fica em frente e seguimos para dentro da cidade de Paso de Los Libres, procurando um tal “container” que servia de escritório de um cara que troca dinheiro – indicação de um caminhoneiro que conheci ainda na Bahia e que sempre faz frete para a Argentina passando por aquela fronteira de Uruguaiana.
 
Não encontrei o tal trailer no local indicado, mas tinha um monte de caras fazendo sinal para parar para fazer cambio de dinheiro. No meio deles, o cara do estacionamento, aquele do Renaut ‘véio’.  Resolvi parar e falar direito com ele. O cara trabalha nisso, troca dinheiro na fronteira.
 
Estávamos há não mais de uns 500 metros da aduana, que era cheia de policiais e gente do exército, e tinha um monte de caras fazendo isso. Depois de negociarmos um pouquinho, a cotação ficou em 1 real X 4,50 pesos. No câmbio oficial seria 1 X 3,20 aproximadamente.
 
Foi no mínimo estranho a gente contando aquele monte de dinheiro no meio de uma rua horrorosa, num lugar que parecia uma favela. Saímos de lá com um verdadeiro tijolo, feito de notas de 100 pesos argentinos, cada
um.
 
Voltamos para a aduana para usarmos o banheiro (que era
arrumado e relativamente limpo) apenas para dividir a pacoteira de dinheiro em várias partes e espalhar cada uma delas por vários lugares diferentes.
 
E, desse jeito, com dinheiro em tudo que era espaço, seguimos viagem até Zárate, arredores de Buenos Aires, chegando lá já à noite. Arrumamos um bom hotel com um preço razoável, mas pareceu ser o melhor hotel da cidade, que é pequena, mas muito agitada e arrumada.
 
Em frente ao hotel, enquanto Lucas foi na recepção negociar o pernoite, um argentino veio puxar conversa comigo, o Fábio. Disse que tinha uma Versis 650 e também adorava viajar de moto. Sonhava em ir conhecer Bonito, no Mato Grosso do Sul. Ele perguntou bastante sobre a nossa viagem e ficou surpreso quando disse a ele que iríamos ao Ushuaia. Detalhe: ele nunca foi ao Ushuaia.  Mas queria ir à Bonito. Realmente a grama do vizinho sempre é mais verde… rsrs
 
Ele é proprietário de um chaveiro e casa de ferragens naquela mesma quadra do hotel. Enquanto eu estava lá fora, cuidando das motos e conversando com o meu novo amigo Fábio, o Lucas voltou e disse que poderíamos ficar lá em dois quartos single (eu não dividia mais quarto com ele por causa do ronco Caterpillar dele), mas que o preço era um pouco salgado para nós. Foi aí que o Fábio disse que o dono do hotel era amigo dele e foi lá conversar com o cara. Voltou depois de meio minuto e disse que conseguiu um bom desconto pra gente.
 
Acabou ficando bem mais barato do que seria. Uns 30% menos. Valeu Fabio!!! Kkk  
 
Motos abastecidas e guardadas nas “cocheras”, um bom banho e fomos comer algo.
 
Depois de uma pizza deliciosa e uma ou duas garrafas de 1 ltr de Quilmes bem geladas, na mesa da calçada de uma lanchonete, ao lado do hotel, fomos dormir.
 
 
Na manhã do dia seguinte eu teria de achar um lugar para mexer naquela maldita corrente remendada que não parava de estalar e me preocupar.
 
Hotel Zárate Palace – Muito bom – Valor da diária: $300 pesos
Gasto Combustível: $554 pesos
 
Você pode assistir ao vídeo do segundo e do terceiro dia….
 
 

Zarate – Cañuelas

Dia 03.12

Zarate – Cañuelas
142 KMs
 
Na manhã seguinte, após o “desayuno” que até que era legalzinho, saí perguntando no hotel se alguém conhecia alguma loja de peças e oficina que pudesse ter a corrente para minha moto.
 
Algum tempo se passou entre eu explicar a eles que precisava de uma loja de peças, que tivesse uma corrente, e eles entenderem que eu procurava um “repuesto” para adquirir uma nova “cadena” para la “mota”! 
 
Mas o que importa é que acabamos nos entendendo… hehehe
 
O dono do hotel apareceu e sugeriu que eu fosse falar com o Fábio, aquele que conheci ontem, pois ele tinha moto grande também, o que era
raro lá na Argentina, e deveria conhecer algum repuesto.

Dando a volta no quarteirão  encontramos a loja do Fábio e conversei com ele. Ele pegou o celular dele e começou a ligar pra tudo quanto era loja, digo, repuesto, atrás da minha “cadena”, visto que na Argentina, e em especial naquela região, as motos são todas abaixo de 300cc. e é muito difícil encontrar peças para motos acima disto.
 
Fábio fuçava na internet e ligava pelo celular. Fez isso por uma hora, talvez. Insistiu tanto que acabou encontrando uma loja na cidade vizinha, Campaña, que tinha uma corrente que servia.  Encontrou no Google Maps o caminho que deveríamos fazer para encontrar a loja, me ajudou a programar o GPS e não poupou esforços para me ajudar.
 

Se fosse aqui no Brasil, dificilmente alguém se dedicaria tanto a ajudar alguém que acabou de conhecer. Eu já tinha tido contato com essa solidariedade argentina na minha outra viagem, em 2010, quando atravessei o norte da Argentina para chegar a San Pedro de Atacama, no Chile, e pude ver, por mim mesmo, que os brasileiros são muito injustos quando falam mal de argentinos. Eles estão anos luz à nossa frente em relação à educação, solidariedade e bons modos. Você percebe isso até na limpeza das ruas, no respeito às leis de trânsito, em praticamente tudo. Temos muito a aprender com nossos hermanos…

 
Depois das fotos tiradas em frente ao seu comércio, seguimos viagem curta, de uns 60kms, até chegarmos em Campaña, uma cidade pequena, menor até que Zárate, mas, mesmo assim, conseguimos nos perder por meia hora, aproximadamente, até encontrar a loja de repuestos. 

Chegamos lá quando eles estavam fechando para o almoço e só voltariam a trabalhar às 15h, por causa da siesta. Ficamos horas parados lá e aproveitamos para almoçar. Costume local, temos de respeitar.

 

Finalmente troquei a porcaria daquela corrente que já vinha me dando trabalho há tempos por uma nova. Aproveitei e troquei óleo e filtro do motor. Sugeri ao Lucas que ele fizesse isso também, mas ele disse que ainda iria esperar mais 1000 kms para trocar o óleo.

 
Um dia depois eu aprenderia mais uma lição nessa viagem: Já que uma moto está parada, fazendo manutenção, façam a manutenção das outras
também. Isso economiza tempo e não causa  desentendimentos…
Finalmente conseguimos por o pé na estrada, mas já eram umas 17h e o dia já estava comprometido.
 
 
Conseguimos rodar apenas uns 80 kms e paramos em Cañuelas, pois já era tarde e Lucas estava com um desarranjo intestinal daqueles.
 
Melhor não arriscar, pois poderia dar merda… literalmente! Kkk.
 
Hotel Libertá – Muito bom – $ 560 pesos

Gasto Combustível: $100 pesos

As imagens você poderá assistir na próxima postagem… aguarde!!!!

 

Cañuelas – Bahia Blanca



Dia 04.12

Cañuelas – Bahia Blanca
650 KMs
 

 

Depois de eu consertar a corrente da minha moto e o Lucas ‘seu cano de descarga’, finalmente poderíamos colocar o pé, digo as rodas, na famosa Ruta 3 e começar a ter contato com as longas retas que nos aguardavam.

Este dia transcorreu tranquilo. Tempo bom e bastante calor. Até agora tinha sido uma boa ideia usar jaqueta e calça de corduramodelo verão, da Riffel. Ventila pra caramba. Vamos ver como será quando ficarfrio, mais ao sul.

 
Apesar de rodarmos por uma única estrada o dia todo, na sua maior parte em retas sem fim, e com tempo bom, o dia não rendeu muito bem e chegamos à Bahia Blanca no início da noite.

Lucas estava preocupado com o consumo da XT, que era alto em velocidades superiores, e acabamos rodando devagar.
 
Resultado: chegamos tarde ao destino do dia e não tivemos tempo de conhecer a cidade, o que me deixou um pouco frustrado.  Além disso, ele precisava trocar o óleo do motor da moto agora.
 
Resolvi que necessitávamos lavar a roupa suja. Foi então que perguntamos no hotel onde havia uma lavanderia de roupas e nos indicaram uma perto do hotel.  Era daquelas que você compra a ficha da máquina e enfia tudo lá dentro e espera o processo terminar. Depois enfia tudo na secadora e espera de novo. Enquanto eu bancava uma prendada dona de casa, ele saiu atrás de uma oficina para trocar o óleo da XT.
 
Uma hora e meia depois, ele retornou à lavanderia sem ter conseguido realizar a troca, pois a oficina havia fechado. Teria de fazer isso na manhã seguinte, o que geraria atraso no trajeto do dia seguinte.
 
Eu juro que não teria ficado chateado com isso, não fosse o fato de ter estado por 5 longas horas numa oficina um dia antes, trocando o óleo!
 
Hotel Patagonia Sur – Excelente – Valor da diária: $320 pesos

Gasto Combustível: $525 pesos

Assista ao vídeo do quarto e quinto dias de viagem…

 

Bahia Blanca – Puerto Madryn







Dia 05.12

Bahia Blanca – Puerto Madryn
693 KMs
 
Saímos do hotel por volta das 9h e fomos direto à oficina. Às 10h30m o óleo da XT já estava trocado, mas eu queria comprar uma coroa nova para a V-Strom, que eles não tinham, mas indicaram onde eu conseguiria comprar, num repuesto na saída da cidade. Coroa comprada, eram 11h e, finalmente, estávamos novamente na Ruta 3.
 
Neste trecho, a Ruta 3 segue sentido oeste para depois virar à esquerda e seguir por mais uns 3000kms para o sul.
 
Tivemos nosso primeiro contato com os ventos. A maior parte do tempo eram ventos de frente, fazendo com que a moto ficasse pesada, o consumo foi ao espaço. Às vezes, ele pegava a gente de lado, da esquerda para a direita, fazendo com que andássemos de lado. O problema eram as rajadas.
Parecia que tinha alguém chutando as rodas da moto, como que tentando dar uma rasteira nela.
 
Depois que a estrada apontou para o sul, os ventos diminuíram, e pudemos impor um bom ritmo.
 
Agora a paisagem era de uma estepe com arbustos baixos, planícies sem fim, a se perder pelo horizonte.
 
Definitivamente, estávamos na Patagônia!
 

Na saída da Ruta 3, para acesso a Puerto Madrin, nosso destino do dia, havia uma espécie de mirante de onde podíamos ver toda a cidade e o oceano Atlântico à sua frente. Ficamos um tempo parados ali, tirando fotos e observando a proteção natural que os “cerros” davam à cidade contra os ventos patagônicos.


Encontramos um hotel muito bom a um preço justo. Havia vários restaurantes ao redor.

 
 
 
 
Depois de instalados, resolvemos dar uma volta de moto pela cidade.

 

 

Fomos seguindo pela orla, que era muito bonita e arrumada.  A avenida da orla terminava num morro e tinha um monte de carros e motos subindo para lá. ‘Vamos ver o que tem lá, então’! Encontramos um mirante fantástico de onde podíamos ver toda a orla da cidade e o oceano à nossa frente, majestoso.

Uma escultura enorme de um índio observava o oceano, como que tentando ver o que havia depois dele. Chegamos exatamente no momento do pôr do sol. Como se ainda  faltasse alguma coisa para aquela paisagem ser surreal, a lua acabava de nascer de dentro do mar e deixava nele um rastro de luz.

Nem vou tentar explicar a beleza daquele momento. 

Vejam as imagens no filme!!!!!

 
Hoje a Quilmes book desceu bonita, 2 litros dela.
 
O fato de ter chegado ao destino do dia com tempo suficiente para dar uma volta pela cidade e ver aquele espetáculo da natureza me deixou extremamente feliz.
 
Mesmo tendo sido apenas uma horinha de city-tur, consegui, ao menos, dar uma olhadinha na cidade por onde estava passando nesta grande viagem, e não apenas ficar andando de moto, o tempo todo por dias e dias. 

Apart Hotel Patagonia – Muito bom – Valor da diária: $300 pesos

Gasto Combustível: $545 pesos

Para conhecer mais:
http://madryn.travel/

Assista ao filme deste incrível dia de viagem….

 

Puerto Madryn – Comodoro Rivadavia

Dia 06.12

Puerto Madryn – Comodoro Rivadavia
 
 
Este foi um dia de fortes emoções, e o relato desse dia vai ser longo…
 
Como de costume, saímos do hotel por volta das 9:00hs depois daquele desayuno fraquinho. 

De tanque e galões cheios do líquido precioso, voltamos para a Ruta 3, sempre para o sul. O destino do dia seria Caleta Olivia. Passamos direto pela pequena Trelew sem abastecer pois tínhamos rodado apenas uns 70 kms. Eu pretendia fazer um desvio no caminho para visitar a pinguineira localizada em Punta Tombo (eu disse PUNTA!).
 

Entramos à esquerda quando vimos a placa indicando a  pinguineira e rodamos 75 kms por uma estradinha deliciosa onde não tinha absolutamente nada. Achei que haveria ali um vilarejo ou pelo menos uma estacion de serviços (é assim que os argentinos chamam os postos de gasolina). Demos de cara com uma porteira de fazenda com placas indicando que dali até a tal pinguineira seria mais 20kms de rípio. 

Lucas logo precisaria abastecer, como sempre. Ficamos um tempo parados ali pensando: vamos ou não vamos? Seriam 40 kms de ripo entre ida e volta, mais 75kms para voltar para a ruta 3 e mais sabe-se lá quanto até o próximo posto de abastecimento. Nisso vem da estrada de rípio um caminhão num pau só e levantando um poeirão danado. Fizemos sinal e ele parou ao lado do Lucas. Era um casal de alemães de meia idade que estavam fazendo turismo por toda a América do Sul num caminhão 4X4 super alto com uns pneus enormes e a carroceria era um motor-home (os encontraríamos de novo, acreditem!). Deve ser muito legal viajar por aqueles lugares num troço desses.
 
Lucas pediu informações ao alemão, em inglês – é claro – e o cara foi muito solícito e atencioso. Disse que o rípio realmente era muito ruim, e procurou o posto mais próximo no GPS dele. Foi aí que eu descobri como se fazia isso. Que burro que eu sou! Chegamos à conclusão de que mesmo colocando o galão de 10 litros na XT ele não conseguiria ir até a pinguineira. Na verdade, mesmo seguindo direto ao posto ele teria de fazer a gasolina render para conseguir chegar. Eu mesmo teria de usar meus 5 litros na Strom e ainda rezar. Resolvemos ali que ele voltaria até a ruta 3 e eu tentaria visitar os pinguins. Nos encontraríamos novamente no próximo posto.
 

Entrei rípio adentro bem devagar, e depois de uns 2 kms me convenci de que isso não daria certo. O rípio estava realmente muito solto, com pedras grandes misturadas, e se eu caísse ali, o que não estava nem um pouco difícil, talvez não conseguiria levantar a moto sozinho. O Lucas tinha de estar junto, mas a autonomia da XT não permitiu. Dei meia volta e lá se foi meu passeio. Fiquei puto.
 
Voltei devagar pela estradinha, pensando em como esta viagem tão desejada estava se desenvolvendo, e não fiquei muito contente. Acho que não planejei tão bem quanto deveria, foi o que me veio na cabeça naquela hora. Mal sabia eu que ainda neste dia eu teria a constatação de que minha preparação feita às pressas para esta viagem me cobraria um preço alto.
 
Quando cheguei de volta à Ruta 3, que fica numa planície mais alta, o vento estava me esperando.
 

Um vento forte que soprava da direita para a esquerda e cheio de rajadas traiçoeiras que tentavam passar uma rasteira nas rodas da moto. Quem me visse balançando a moto daquele jeito acharia que eu estava completamente bêbado. A moto ia de um lado ao outro da pista e o esforço em mantê-la na pista correta, sem invadir a contra mão, era enorme. Mas aos poucos eu fui acostumando e balançava menos. Assim foi até chegar à estacion de serviços. Lucas também tinha acabado de chegar. Cheguei no cheiro. Dos 22 litros de capacidade do tanque, entraram 21,5! Mas ainda tinha o galão de reserva. 

 

Depois de abastecermos encostamos as motos em frente à lojinha para comprar um Gatorade.

 
Na saída tinha um argentino chegando numa Falcon, o Pablo. Era um cara muito simpático, puxou conversa com a gente, mas eu ainda estava puto com o lance da pinguineira e não quis muita conversa. Quanta grosseria a minha. Depois fiquei até com vergonha.
 
O Lucas conversou com ele e disse que iríamos até Caleta Olivia. Então ele nos disse: no, ustedes tienen de ir a Comodoro Rivadávia!!! Está tiendo um encuentro de motos de los Choikes!!!

Fiquei meio sem entender nada, pois não tinha prestado muita atenção à conversa, mas o Lucas veio me explicar: naquele fim de semana haveria um Moto Encontro do Choikes MC na cidade de Comodoro Rivadávia e o Pablo estava nos convidando para participar. Como eu não estava num momento muito bom para fazer amigos, disse que seguiríamos com o planejado e o destino do dia seria Caleta Olívia.
 
Lucas percebeu que eu não estava legal e concordou comigo.
 
Nos despedimos do Pablo e voltamos para a estrada.
 
O vento!!!
 
Agora o vento tinha despirocado de vez! Quanto mais a gente descia para o sul, piorava. Já tinha lido em vários relatos de quem foi a Ushuaia pela Ruta 3 que o vento castigava, mas não estava preparado para aquilo. Era um vento constante, que não dava trégua, e a cada 2 ou 3 segundos batia uma rajada que parecia ter o dobro da força e fazia com que a moto, que já estava andando inclinada a uns 20 graus, deitasse até quase raspar a pedaleira no chão! Era como se estivesse fazendo uma curva muito fechada em alta velocidade, só que tentando manter em linha reta. Muito doido. O esforço no pescoço (por causa do vento empurrando o capacete contra o rosto) e nos ombros e braços para tentar segurar no braço a moto na pista certa, era punk! 

Passamos por uma região que tinha várias turbinas eólicas ao lado da estrada e pensei comigo: se este treco é movido a vento, está no lugar certo. Vá ventar assim lá na @#$%&… 

Mas ainda iria piorar!
 
Em dado momento parei no acostamento para descansar um pouco os braços (faço isso a cada 1 hora para descansar a bunda, também faz parte do meu ritmo de viagem) e o Lucas veio falar comigo sobre o vento. 

Estávamos assustados com a força daquele vento e também com o perigo daquela situação. Era muito tenso quando tentávamos ultrapassar
algum caminhão ou veículo grande, porque o vento era bloqueado de repente, e se não levantássemos a moto muito rapidamente, iríamos parar em baixo das rodas traseiras. Às vezes o vento dava a volta por cima do veículo e vinha pelo outro lado, fazendo-nos inclinar para o lado contrário, e ao passar pelo veículo o vento vinha da direita com mais força ainda devido ao deslocamento de ar natural do veículo. Insano!!! 

Numa dessas ultrapassagens o vento que peguei depois da ultrapassagem foi tão forte que me mandou quase para o limite do acostamento da pista contrária (que era de rípio fofo e ainda tinha um desnível para a pista) e eu não conseguia voltar, mesmo vendo que vinha um caminhão no sentido contrário. Quando iniciei a manobra de ultrapassagem vi que havia uma distancia enorme para executá-la, mas como não conseguia voltar para a minha pista o caminhão foi se aproximando, aproximando, e quando consegui arrastar no braço a moto de volta para a pista certa, já estava em cima. Não pude nem me dar ao luxo de ficar com tremedeira, tamanha a dificuldade em segurar a moto na pista. 

Parados no acostamento, tínhamos de ficar em pé ao lado da moto para que ela não caísse, de tanto que balançava. 

Numa dessas paradas vi que havia algo escorrendo pelas bengalas da Strom. Olhei mais de perto e era exatamente o que eu estava torcendo para não ser: óleo das bengalas, vazando absurdamente, dos dois retentores!
 
Não era um vazamentinho. Estava tudo babado de óleo. A impressão que deu era que todo o óleo tinha sido jogado pra fora. Não faço ideia de quando tinha começado aquele vazamento, mas certamente um retentor estourou e o esforço que eu estava fazendo com a moto andando inclinada numa espécie de contra-esterço para mantê-la em linha reta deve ter forçado as bengalas, e logo o outro retentor estourou também. Isso talvez até explicava um pouco por que eu estava tendo tanta dificuldade em segurar a danada no braço.
Pensei comigo: agora fudeu!
O jeito era tentar chegar do jeito que desse à primeira cidade para ver o que faria da vida. E não é que a próxima cidade era Comodoro Rivadávia? Lá estaria havendo o encontro de motos!!!
 
Mas ainda faltavam uns 100 kms, que sinceramente, não sei como consegui chegar, naquelas condições. Não sei o que estava mais difícil de superar. Se era o vento, que só piorava à medida que íamos para o sul, se era aquela frente pulando feito cabrito pela falta do óleo que faz o serviço de amortecedor, a combinação dos dois deixando a pilotagem quase impossível, ou minha cabeça dando voltas pensando que talvez eu não encontrasse os retentores para trocar, e desta vez – ao contrário da viagem ao Atacama – eu não estava levando nenhuma peça de reposição, inclusive os malditos retentores! Que merda! Que vento! Que moto pesada! Que dor nos braços!
 

Seguimos a uns 80 km/h até chegar em Comodoro Rivadávia. Deus sabe como consegui chegar lá, pois ele ficou o tempo todo grudado em mim naquela garupa, me tranquilizando e protegendo. Só assim mesmo.
 
Chegamos e já fomos procurar hotel. Ou estava lotado, ou era muito caro, ou era péssimo. Resolvemos ir até o tal encontro dos Choikes MC, pois lá eu deveria encontrar motociclistas que conhecessem as lojas de repuestos para motos grandes, mecânicos, e talvez até ajuda para encontrar algum hotel, bom e barato.
 


O encontro dos Choikes
Rodamos um pouco até encontrar o lugar, que era meio afastado do centro da cidade, e quando entramos no lugar, que parecia ser um parque municipal, todos ficaram nos olhando e quando viam que as motos tinham placas do Brasil, ficavam impressionados e chamavam a atenção dos outros para a nossa chegada.
 

Pensei comigo: acho que vamos apanhar aqui! (brincadeira, pois já tive a oportunidade de vivenciar o respeito e a amizade que os argentinos tem pelos brasileiros, especialmente os motociclistas). 

Assim que paramos as motos, lado a lado, bem no meio do agito do encontro, o Pablo, aquele cara da Falcon que veio falar com a gente no posto da ruta 3, veio nos receber e fez a maior festa.
 
Já começou a avisar pra todo mundo que éramos do Brasil,estávamos a caminho do Ushuaia, e que ele tinha nos convidado ao encontro.Virou uma festa, e em 5 minutos já estávamos até falando no microfone para todos os presentes, ao melhor estilo Porgunholês! Agora o encontro do Choikes MC era um evento internacional!!! Fomos cumprimentados e até abraçados pelospresentes. Quando dissemos então que tínhamos saído da Bahia para vir fazermoto-turismo no país deles, em especial o Ushuaia, quase fomos ovacionados.
 
Passado o frenesi inicial da nossa chegada, pedi ao Pablo me apresentar a algum mecânico que estivesse ali presente para eu expor minha situação. Ele estava bebendo uma mistura de Fernet (que é uma espécie de vermuth com teor alcoólico bem alto misturado com coca-cola) e insistiu para eu experimentar. Até que era gostoso. Ele disse que iria procurar um cara lá no bar, que estava instalado dentro de um salão (a única construção dentro daquele parque) e quando voltou me trouxe um copo de uns 700 ml daquele troço que ele estava tomando. Trouxe também o Daniel para me apresentar. Ele era mecânico nas horas vagas e foi altamente recomendado por todos com quem conversei a respeito do meu problema mecânico.
 
Depois de dar uma olhada nas “canelas” da V-Strom, o Daniel tinha uma notícia boa e uma ruim para me dar.
 
A boa é que eu não teria grande dificuldade para encontrar os tais retentores, desde que as lojas de repuestos estivessem abertas, o que me leva à notícia ruim.
 
A ruim é que aquele dia era um sábado, e já era tarde.
Umas 21:00 talvez, e as lojas e mecânicas estavam todas fechadas. Domingo elas não abririam. Segunda elas também não abririam, visto que seria feriado (Dia da Virgem, Padroeira da Argentina, o mesmo de Nossa Sra. Aparecida no Brasil) e eu só conseguiria consertar a moto na terça feira.
 
Assim sendo, cheguei à brilhante conclusão de que só poderia seguir viagem na quarta-feira.
 
Fiquei em estado catatônico durante alguns minutos. Este atraso de 3 dias na programação, além do dia que eu já estava atrasado por causa da troca da corrente em Campaña, fariam com que toda a programação da viagem fosse para o espaço, pra não falar outra coisa.
 
Ainda ficamos lá no encontro durante mais uma hora e meia talvez. Foi o tempo que levei para conseguir tomar todo aquele Fernet com coca-cola, que não acabava nunca.
 
Estávamos extremamente cansados da viagem e da batalha árdua contra o vento. Ao menos o Fernet me fez não sentir mais dores no pescoço. Nem nos braços. Na verdade, não sentia mais nada, estava tudo anestesiado.
 

Seguimos algumas dicas que nos deram sobre hotéis eencontramos o Hotel Encina. O preço e o quarto eram medianos, mas a recepção e o restaurante eram legais. Resolvemos ficar lá mesmo. Estávamos cansados demais para tentar procurar outra coisa, e já era muito tarde.

Cada um pegou um quarto, mas tivemos uma rápida conversa antes de ir dormir.
 
Mudança de planos
 
A espera de 3 dias para consertar a moto (talvez mais) faria com que eu tivesse de abortar a ida até Ushuaia, pelo motivo de que havia uma data certa para eu chegar à El Calafate encontrar com Andréa, que estava vindo de avião. Definitivamente, eu tinha de traçar um plano B.
 
Conversei com Lucas e de comum acordo resolvemos que ele tentaria seguir viagem solo, rumo à Ushuaia. Não fazia sentido ele ficar lá parado sem fazer nada, só me esperando. Na verdade, antes de começar a viagem, eu já tinha combinado com ele que se algum de nós resolvesse mudar os planos durante a viagem, desde que não fosse devido a alguma emergência por motivo de doença ou acidente grave (que necessitasse da ajuda e apoio do parceiro) o outro seguiria conforme o planejamento da viagem.
 
E como o que é combinado não sai caro, decidimos nos separar a partir dali.

 
Hotel Encima – Médio – Valor da diária: $430 pesos

Gasto Combustível: $433 pesos

O vídeo você poderá assistir na próxima postagem……. aguardem!!!!

Encontro do CHOIKES – Comodoro Rivadavia

Dia 07.12
ENCONTRO CHOIKES
 
Comodoro Rivadavia
 
 

No dia seguinte, um domingo, dormimos até tarde. Levantei lá pelas 9:30, tomei café da manhã e dei uma volta pelos arredores do hotel a pé. Lucas continuou no quarto dormindo. Ele tiraria o dia para descansar e reorganizar seus planos.

Perambulei por 2 horas a pé, apesar de ainda estar mancando devido à torção do tornozelo esquerdo ocorrida poucos dias antes do início da viagem (conforme explicado no início deste relato).

Pensei bastante na vida. Estava bem chateado, não pela moto ter quebrado, mas por eu não ter tido o cuidado de providenciar algumas peças de reposição como tinha feito das outras vezes, de ter sido relapso com a revisão da corrente ainda na Bahia, sentia falta da minha esposa e parceira e co-pilota para me dar apoio nessa hora de tristeza pela constatação de que o principal objetivo da viagem, Ushuaia, não seria alcançado. Momento de avaliação de tudo que tinha rolado nesta viagem até ali.

O cansaço do dia anterior foi tão grande que ainda estava dolorido e me sentindo cansado. Voltei para o hotel e fui dormir novamente.

Levantei lá pelas 14:00hs e resolvi ir até o encontro dos Choikes ver o que estava rolando. Chamei o Lucas, que também estava dormindo, mas ele não quis ir. Preferiu continuar descansando, pois no dia seguinte ele continuaria viagem com seu próprio plano B.

 

Chegando no local do encontro fui novamente muito bem recebido pelo pessoal dos Choikes MC, que estavam preparando 3 cordeiros patagônicos (churrasco de carneiro assado inteiro) ao lado do salão que servia de bar e refeitório para o encontro, e tomando vinho. Fiquei por lá até as 22:00hs conversando com todo mundo, fazendo amigos, trocando experiências.

Foi muito legal passar aquele dia com eles. O dia foi tão divertido que eu já nem estava chateado de ter abortado a ida até Ushuaia. Me senti um velho amigo daquele pessoal divertido. Fiquei tão amigo do pessoal que eles até improvisaram uma cerimônia de aceitação minha no Moto Clube e me declararam “Presidente da sucurssal Bahia dos Choikes no Brasil”!!!

Um outro companheiro motociclista que tinha vindo de Santiago, no Chile, especialmente para este encontro, também foi declarado presidente da sucurssal Chile dos Choikes. Foi muito legal e divertido.

Sinto-me honrado de agora fazer parte daquela verdadeira família de motociclistas argentinos.

Não poderia encerrar o relato deste dia sem agradecer a todos os integrantes e amigos do Choikes Motoclub Comodoro Rivadavia. Galera nota 1000 !!!

 
 

Muito obrigado ao presidente Jose Luis, ex-presidente Marcelino Mansilla (grande cara, literalmente), Alejandro Juárez (fala português e foi meu intérprete nos momentos em que o portunhol fracassou-hehehe), Daniel (mecânico), Pablo (de Trelew), a Gladys e o Fijo (casal de Gal.Roca – super legais), o Claudio Alejandro, Carlos Alberto, e mais um monte de amigos que não vou conseguir lembrar dos nomes, mas que com certeza ficarão guardados em minha lembrança como meus queridos amigos argentinos e que espero reencontrar um dia. Seja na Argentina, seja no Brasil!

Assista em vídeo mais este dia de aventura.
 

Moto Quebrada = Dormir muito

Dia 08.12
MOTO QUEBRADA = DORMIR MUITO
 

Na segunda, feriado nacional (dia da Virgem ) estava tudo fechado e o encontro dos Choikes já havia terminado. Aqueles que tinham permanecido lá durante o domingo estavam agora retornando para suas casas, pois muitos deles tinham vindo de outras províncias.

Este dia é dedicado à Nossa Senhora de Lujan. Em 1630, Antonio Farias Saa, fazendeiro criado em Santiago Del Estero, levava duas imagens, que representavam a imaculada Conceição, de São Paulo, Brasil,  para sua cidade, onde queria construir uma capela para virgem. Porém, a caravana se deteve ao longo do rio Lujan, a 67 km de Buenos Aires. No outro dia, iriam continuar a viagem, mas a Carroça, transportando as imagens, não se movia. Os carroceiros retiraram uma imagem e a carroça não se moveu, retiraram a outra imagem e a carroça passou a andar normalmente. Nesse instante, os homens perceberam que algo de milagroso estava acontecendo. 
Basílica de Nossa Sra de Lujan (Buenos Aires)
Vendo que a Virgem não queria deixar o local foram para a casa mais próxima, na qual foram recebidos por uma família que emocionou-se ao ver a imagem e a colocaram em sua casa. A notícia correu toda a região e chegou em Buenos Aires. Dom Rosendo construiu uma pequena capela, entre as gramíneas dos pampas, neste local a virgem permaneceu intacta de 1630 a 1674. O local se tornou povoada com os devotos da Virgem, e o espaço tornou-se uma vila que foi denominada Povo de Nossa Sra. de Lujan (Para saber mais: http://pt.wikipedia.org/wiki/Nossa_Senhora_de_Lujan e http://www.paulinas.org.br/diafeliz/?system=maria&id=67). 

 
Dia de não fazer absolutamente nada! Aproveitei para colocar a cabeça em ordem e traçar o plano B.

 

Estaria atrasado 4 dias na programação original. De Rio Gallegos há uma estrada asfaltada que vai se encontrar com a Ruta 40 e segue para El Calafate. Era nesta cidade que me encontraria com Andréa, que chegaria lá dia 11 de dezembro.

Abortando Ushuaia dos planos, eu economizaria 1 dia de viagem indo e outro voltando entre Rio Gallegos e Ushuaia, além da estadia prevista de 2 dias por lá.

Resolvido: de Rio Gallegos seguiria direto para El Calafate para encontrar Andréa e assim estaria novamente na programação das datas, conforme planejado.  Fechou!

 

Conserto da Moto

Dia 09.12
CONSERTO DA MOTO

 

O presidente do Choikes, José Luis,  combinou comigo que passaria no hotel em que eu estava hospedado na terça logo cedo para me guiar até a oficina que iria fazer o conserto nas bengalas da V Strom. Deu 9:00hs e nada dele aparecer. Do telefone do hotel eu liguei pra ele e acordei o cara. Em 20 minutos ele estava na porta do Hotel Encina com seu carro e foi me guiando até a oficina do Lombris (Calle Mendonça 67  fone 297-6250400 em C. Rivadavia – Recomendo!). Na verdade era bem perto do hotel, umas 8 quadras apenas. A moto ficou lá até as 15:00hs e o serviço ficou muito bom. Eles mesmos providenciaram de encontrar os reparos (reténs) das bengalas (cañuelas) nas motopeças (repuestos) da região.

O serviço ficou em 2000 pesos (444 reais pelo cambio que eu tinha feito). Troca dos dois retentores (+as peças) com um polimento nas bengalas + o óleo da suspenção e ainda troca de óleo e filtro do motor. Achei o preço bem justo. Até barato. Se fosse no Brasil, um mecânico vendo um argentino em apuros no meio de uma grande viagem, provavelmente se aproveitaria para enfiar a faca no infeliz do argentino. Mais uma vez eu comprovei a retidão dessa turma. Já havia passado por isso na minha viagem para o Atacama em 2010 quando precisei de um serviço de emergência no botão de partida da moto em Santiago Del Estero, Argentina, e fui atendido com rapidez e profissionalismo pelo dono da mecânica (Pablo, se não me engano). Realmente, temos muito a aprender com nossos hermanos…

Como a distância para Rio Gallegos, próxima parada, era de aproximadamente 800 kms, não adiantaria eu sair de Comodoro Rivadávia na parte da tarde. Era melhor eu reiniciar a viagem na quarta bem cedo.

Comodoro Rivadávia é a cidade mais populosa da província de Chubut, no sul da Argentina, às margens do Atlântico. É uma cidade seca, localizada na Baía de São Jorge. Fundada em 1901, prosperou a partir de 1907, com a descoberta do petróleo ao procurar por água, sendo considerada a “Capital Nacional do Petróleo”. Também conhecida como “la puerta de acceso al Corredor Turístico de la Patagonia Central y de la Patagonia Austral. 

Para conhecer mais: http://www.comodoroturismo.gob.ar/

 

Comodoro Rivadavia – Rio Gallegos

 

Dia 10.12

Comodoro Rivadavia – Rio Gallegos
 
 


 
Acordei cedo e já tinha deixado as coisas arrumadas na véspera, enquanto aguardava o concerto da moto.

Tomei aquele desayuno fraquinho típico dos hoteis argentinos (duas meia lunas e uma xícara de café com leite) e arrumei toda a bagagem na moto. Lá pelas 7:30hs já estava indo para a estrada.

Agora estaria viajando sozinho. Lucas já tinha partido na segunda, dia 8, e eu nem sabia se seria para o sul ou para o norte. Quem sabe oeste? O certo é que para o leste ele não foi, pois pra lá só havia o Atlântico.

Estes dias parados serviram para descansar bastante. O
destino de hoje seria Rio Gallegos, a 800 kms dali, e eu estava preparado. 

Logo no início do dia já dava pra perceber que a viagem seria tranquila. Agora que não tinha mais XT “tentando” acompanhar a V-Strom, podia impor um ritmo mais forte e não ficar o tempo todo preocupado em chegar logo no posto de gasolina mais próximo. O vento estava lá novamente, mas muito mais tranquilo. Agora ele já nem incomodava mais, era uma brisa comparado ao que havíamos passado 4 dias atrás.

Dia agradável, ritmo bom, foi um verdadeiro passeio. Agora não tinha mais a preocupação de saber que tinha outra moto me seguindo. Podia rodar forte quando queria, devagar quando passava por alguma paisagem legal, parava para fotografar e filmar quando quisesse. Me sentia leve. Foram os 800 kms mais agradáveis daquela viagem até aquele momento.

A chegada a Rio Gallegos é feita por uma auto-pista de 3 faixas em cada sentido com controle de velocidade. Uns 20 kms antes de entrar na cidade havia um trevo com placas indicando que para seguir para Ruta 40 e El Calafate eu deveria trocar de estrada. Era por ali que eu seguiria no dia seguinte.

Também havia uma placa indicando “Ushuaia 597 kms” seguindo em frente, mesmo caminho que eu fazia para entrar em R.Gallegos. Parei para fotografar a placa, apenas para me lembrar depois de quão perto eu havia chegado da bendita Ushuaia, sem poder alcança-la. Pelo menos não naquela viagem. O “fim del mundo” teria de esperar por mim mais um pouco…

 

Cheguei em Rio Gallegos por volta das 18:00hs e logo na entrada da cidade encontrei um hotel meia boca, porém barato, perto de uma estación de serviços e uns restaurantes. Resolvi ficar por lá mesmo porque na manhã seguinte eu teria de voltar para tráz até aquele trevo que me levaria para El Calafate, e quanto mais eu entrasse na cidade, mais eu teria de voltar depois.

Moto abastecida, banho, um belo bife de chourizo e uma garrafa de vinho. Eram 9:00hs e eu já estava dormindo felizão.

 
 
Nesta data, Andréa começara a aventurar-se e se juntava a Jorge na realização de mais este sonho, mas ela mesma vai contar esta história:

Meu dia também começou cedo, e as malas, quer dizer, a mala já estava pronta, ainda bem, porque o dia foi super-corrido, trabalhei o dia todo, quase até a hora de partir rsrsrsrsrsrsrsrsr

Meu voo saiu de Salvador às 20h20m e minha amiga Cristiane, a quem aproveito para agradecer, foi quem me levou ao aeroporto.

Quero aproveitar aqui para agradecer a minha coordenadora Helena, pelo apoio e compreensão, e as minhas amigas e colegas de trabalho, Raquel e Manuela, por terem aplicado minhas provas finais, para que eu pudesse começar minhas férias mais cedo. Minha eterna gratidão pelo companheirismo!

Minha viagem foi de Salvador em direção a El Calafate, Argentina, mas não tão simples assim, tive conexões em São Paulo e em Buenos Aires e a viagem toda durou mais de 14 horas. Era a primeira vez que eu viajava sozinha de avião por tanto tempo e para tão longe, sentia uma mistura de ansiedade e felicidade, ambas por saber que logo encontraria Jorge, amor de quem eu estava com muita saudade, e começaria a realizar mais um grande sonho.

Em Salvador, tudo correu tranquilamente, com uma pequena mochila com minha roupa de cordura e meu capacete, além de duas camisetas, meias e calcinhas (para qualquer emergência caso o encontro com Jorge atrasasse, já que ele carregava minha bagagem), eu parti rumo a mais uma aventura sobre duas rodas.

Ao chegar ao Aeroporto de Guarulhos, por volta das 23h, tivemos uma espera de 40 minutos para desembarcar, por falta de espaço para a aeronave parar, ainda bem que tinha quase 04 horas entre um voo e outro.

Logo fui fazer meu check-in na Aerolineas Argentinas, para ficar tranquila, embora ainda tivesse muito tempo de espera pelo voo que me levaria até Buenos Aires. Ao chegar no balcão, a atendente me olhou como quem olha uma assombração, mediu dos pés a cabeça, acho que porque eu estava vestida para tudo, menos para uma viagem internacional rsrsrsrsrsrsrsr Para minha surpresa (e acho que mais a dela) ao pegar minha passagem, seu semblante mudou, abriu um sorriso e começou a me informar que a área VIP estava a minha disposição, me explicou o local e foi super amável (não sei se foi só impressão minha, mas algo mudou no ar). Eu, ignorante nestas coisas de área VIP, achei que era uma área para todos que viajavam pela companhia (nunca tinha viajado pra fora do país, a não ser de moto, com o que estou bem acostumada rsrsrsrsrsr).

Fui dar uma volta no aeroporto, tomar um cafezinho, ir à livraria, comprar uma revista de Lógica, coisinhas que gostamos de fazer no aeroporto. Então, decidi ir pra Sala VIP. Para entrar nela passei pelo Duty Free Shop, nem parei, eles não tem a minha cara e a falta de espaço em viagens de moto proporciona uma economia incrível rsrsrsrsrsrsr

Mais um momento de comédia: ao chegar à área VIP, já fui entrando (lembra que achei que era pra todo mundo) e vi que a porta de vidro não se abria. Uma mocinha, muito simpática, pediu para ver minha passagem, depois de conferir, avisou que eu ficasse à vontade e tranquila, porque eu seria informada no momento de embarcar.

Então, a porta se abriu

.. e uma sala GIGANTE e COMPLETAMENTE vazia surgiu pra mim!!!!!!!!!!! Tinha sofás variados, uma mesa de café com chás, biscoitos, pãezinhos, uma super-máquina de café expresso, que mais parecia vinda de outro planeta.
 
 
Ahhhh também tinha vinho, cerveja e…………. champanhe!!!! Isso mesmo, champanhe geladinho em um balde!!!!! Fiquei paralisada, nem sabia que isso existia kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
 

Depois de um tempo para me localizar e ambientar, resolvi andar pra conhecer o espaço VIP…tinha salas para descanso, salas pra usar computador, salas pra ouvir música ou ver TV, uma loucura rsrsrsrsrsrsrsrsrsr Decidi ficar por ali, na sala grande mesmo, tão paralisada com a situação que apenas tomei café, cappuccino e comi umas bolachinhas rsrsrsrsrsrs nem pensei em me esbaldar nas bebidas rsrsrsrsrsrsrsr 

Eu ainda não sabia direito o que estava acontecendo e se algo estava errado, já era dia 11 de dezembro!

Acompanhe a viagem em imagens:
 

Chegando em El Calafate

Dia 11.12
São Paulo à El Calafate, de avião

 

O voo para Buenos Aires saiu de São Paulo com quase uma hora de atraso, fiquei um pouco apreensiva, pois o tempo de conexão para El Calafate não era assim tão grande e eu não conhecia nada de aeroportos internacionais e já tinha lido, em alguns relatos, que o Aeroporto Internacional de Ezeiza , na Argentina, é um pouco confuso. Se eu perdesse o voo para El Calafate, só no dia seguinte, com muita sorte, conseguiria outro, afinal, são dois voos por dia e ambos pela manhã.

Fui avisada que eu poderia embarcar e ao entrar no avião, outra surpresa (que eu já devia esperar): eu estava na área VIP mesmo, no avião também, na classe executiva!!!!!!!!!!!!!! Eu posso garantir que essa foi a passagem mais barata que eu achei no momento de comprar (quem me conhece, sabe bem isso) kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk Não encontrei, até agora, nada na assagem que falasse sobre ser VIP rsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsr, continuo procurando.

Não faço ideia de como fui parar ali rsrsrsrsrsrsrsrsrsr, mas estava ali, em uma poltrona que cabia duas de mim, quer era uma cama, praticamente, com uma comissária que ficava perguntando o que eu queria, se eu precisava de algo, cada vez que eu abria os olhos (era madrugada e eu dormi quase o tempo todo rsrsrsrsrsrsr) e que me ofereceu mais de um café da manhã, mesmo sem eu dar conta nem de um só.  Tudo isso foi, no mínimo, engraçado!!!!

 

 

 

 

O voo pelos céus argentinos acontecia junto com o nascer do Sol. Foi interessante ver e fotografar os lugares pelos quais Jorge havia passado de moto (embora um aviso dissesse para não ligar os celulares, eu liguei pra fotografar, afinal, eu não era VIP??? rsrsrsrsrsrsrsr). Eu ficava olhando e pensando em que parte daquelas terras ele estaria agora…


Chegamos a Buenos Aires com o dia amanhecendo, era por volta das 5h, meu voo para El Calafate estava previsto para as 7h55m. O Aeroporto é pequeno, e estava lotado, com uma fila imensa para passar pela Aduana, mas que estava andando bem rápido, o que já demonstrou a agilidade no atendimento. O aeroporto nem era tão bagunçado como eu havia lido. Fui bem informada por todos, de para onde teria que me dirigir, pois existem várias alas, como em São Paulo e temos que sair de um prédio e ir pra outro, uns 5 minutos de caminhada.

Ao chegar ao embarque, após passar novamente por outro Duty Free, sem nem parar para olhar, encontrei um saguão lotado… todos iam para USHUAIA!!!!! Meu voo ia para o Ushuaia, com escala em El Calafate!!! Todos os voos vão para o Ushuaia rsrsrsrsrsr Neste momento, eu só conseguia lembrar no que pensei quando Jorge me disse que não conseguiria chegar lá: Está tão perto!!!!

Quando tudo aconteceu com a moto e falei com Jorge pelo Skype, quando ele me contou que não teria mais como chegar ao destino final, eu fiquei muito, muito, muito triste, chorei depois que desligamos. Eu via o mapa e não conseguia acreditar, não parava de pensar: mas ele chegou tão perto, ele está tão perto!!! Ele tem que ir até lá! Somente depois de algumas conversas com ele, ao longo do dia seguinte à decisão, é que eu consegui me conformar, acho que fiquei mais triste que ele!

Bem, o voo atrasou novamente, parece que pontualidade não é algo muito comum em voos internacionais rsrsrsrsrsrsrsrsrsrs Saímos de Buenos Aires quase 9h, a previsão era 8h em direção ao destino final.
 

Nos planos iniciais, eu ficaria um dia sozinha em El Calafate, pois Jorge chegaria somente dia 12. Com as mudanças na programação, Jorge chegaria quase que junto comigo! E foi exatamente o que aconteceu…

 
 
 
 
 
Rio Gallegos – El Calafate, de moto
 

 

Novamente acordei cedo e detonei aquele desayuno sem graça. Não via a hora de botar as rodas na estrada e seguir logo para El Calafate para encontrar a Andréa, que chegaria lá no fim daquela manhã.
 

Agora que viajava solo, sentia mais ainda a falta da minha parceira de aventuras.

Voltei pela mesma estrada da chegada a Rio Gallegos e naquele trevo, que já tinha passado na véspera, mudei de estrada e segui para a Ruta 40. Finalmente iria rodar na famosa RUTA 40!!! Andaria nela por uns 2.000 kms!  Isso também era um antigo sonho.

Estrada perfeita, dia bonito, vento ainda tranquilo (pois geralmente logo cedo ele era mais fraco) e pouca quilometragem para percorrerneste dia. Tudo prometia que este seria mais um dia de passeio agradável.

E realmente foi, apesar de tomar uns dois sustos com os guanacos atravessando a pista na frente da moto.

 

Resolvi seguir devagar e parar para fotografar sempre que via algo interessante.

Neste dia, também foi o meu primeiro encontro com o rípio da Ruta 40, só que em um trecho pequeno, o “melhor” ainda estava por vir.

Depois de uns 100 kms rodados alcancei uma nuvem enorme e muito carregada, que eu já vinha avistando fazia algum tempo. Assim que senti os primeiros pingos resolvi parar para colocar a capa de chuva. Estava bastante frio e não seria nada bom ficar molhado.

Eu estava com um monte de roupas por baixo da jaqueta e da calça de cordura, além dos forros térmicos. Estava difícil para me movimentar com tanta roupa e foi um verdadeiro desafio colocar a roupa de chuva por cima disso tudo. Até sentei no acostamento cheio de areia e pedrisco para conseguir colocar as polainas sobre as botas.

Nisso, olhei para trás e vi um bando de guanacos olhando pra mim. Tive a clara sensação de que eles estavam pensando: o que este tonto está fazendo ali todo atrapalhado?

Demorei tanto para colocar a roupa de chuva que quando terminei a nuvem já tinha ido embora e não estava mais chovendo.  Pensei comigo: agora vou assim mesmo, pois já que está frio, vai ser uma proteção a mais para o vento. Aliás, dali em diante, o vento começou a aumentar bastante, e agora eu o pegava de frente.  Quanto mais eu seguia pela Ruta 40 em direção a El Calafate mais a paisagem ia mudando.

Depois de vários dias vendo aquela mesma planície a perder de vista com vegetação baixa, agora começava a subir e descer várias colinas. As plantas mudavam um pouco, mas sempre eram baixas, indicando que naquela região o vento é quem comandava.

Parei num mirante no alto de uma dessas colinas e lá o vento estava muito forte. Tive de parar a moto numa posição de frente para o vento, pois se a deixasse de lado, provavelmente tombaria.

Estava ansioso para chegar a El Calafate e encontrar a Andréa. Já fazia duas semanas que eu tinha partido da Bahia para iniciar a viagem sem ela.

Depois desta parada toquei direto até chegar ao meu destino do dia. Logo na entrada da cidade o GPS me fez entrar numa rua que estava em construção e, de repente, eu me vi numa verdadeira caixa de brita e pedras e quando tentei fazer a volta, pois a rua acabava num barranco, a moto tombou. Eu estava tão empolgado em chegar logo ao encontro da Andréa que nem esperei por alguma ajuda para levantar a moto. Numa tentativa só já a levantei, com malas e tudo, e com cuidado tirei ela daquela verdadeira armadilha e tentei outro caminho. Depois dessa presepada, o GPS me levou direitinho até a porta do hotel.

Cheguei ao hotel ao meio dia, quinze minutos depois dela ter chegado de táxi vindo do aeroporto. Isso é que é sincronismo! Rsrsrs… (Eu, como psicóloga que sou, digo que é sincronicidade rsrsrsrs).

Logo que cheguei, a recepcionista pediu ao pessoal do bar do hotel que me servisse um vinho que era misturado com suco de frutas e canela (receita própria deles). Andréa já estava tomando uma taça e assim pudemos brindar nosso reencontro e o início da aventura sobre a moto para ela, a partir de agora.
 

A partir deste ponto a viagem será contata pela Andréa, que é quem sempre escreve os textos que abastecem este blog com nossas aventuras, além de montar os vídeos e postar as fotos, sempre com muita dedicação e carinho, para que nossos amigos e familiares possam pegar uma carona conosco nas nossas viagens por esta linda América do Sul e para que outros internautas e motociclistas possam colher informações úteis para planejar suas próprias viagens e realizar seus próprios sonhos e aventuras sobre duas rodas!…

Conhecendo El Calafate

Continuamos no dia 11.12
 
Como Jorge já contou, chegamos com
15 minutinhos de diferença… 
Sincronicidade pura!!!!!!!! Rsrsrsrsrsrsr
 
 

Ao chegar ao Hotel, eu logo quis me conectar na internet pra ver onde ele estava (lembram que ele estava com o spot e eu o acompanhava o tempo todo), mas não conseguia me conectar ao link. Comecei, então, a falar com minha irmã Silvia, que estava acessando e acompanhando Jorge. Foi muito legal, ela me avisou que ele estava na estrada, depois que estava chegando à El Calafate e foi me informando de cada passo, ou melhor, km rodado rsrsrsrsr.

Silvia (minha que estava acompanhando a viagem de Jorge) falou pra eu ficar na janela que ele estava se aproximando do Hotel, e foi o que fiz, fiquei de olho na rua que nos leva ao hotel, e nada… de repente, ela disse: ele já está aí, ele está no hotel!!!! e quando me viro, lá está ele, entrando no salão. Ele tinha pegado a rua errada (ele já contou que até tombou), por isso não veio pela rua principal e eu não o vi chegar, mas, mesmo assim, foi muito divertido. Além de conseguir acompanhar sua viagem, essa, sem dúvida, foi a parte mais legal de ele estar com o spot!!!!!!!

Depois do encontro emocionado e emocionante, depois de apreciar o vinho oferecido pelo hotel, delicioso e acolhedor, fomos para o quarto, tomar um bom banho, merecido depois da correria da viagem e nos arrumar para ir almoçar e conhecer o centro de El Calafate.

Eu não me importo com as dificuldades de andar de moto por longas e, às vezes, difíceis estradas. Não me importo com o desprendimento material necessário (por falta de espaço na bagagem) e nem com o cansaço, o desconforto. Tudo isso é compensado pelo prazer de ver o mundo de um jeito diferente, de poder sentir o perfume do caminho e poder ver e fotografar visuais fantásticos. Agora, tenho uma exigência: escolho os hotéis! Durante a viagem, normalmente os hotéis são simples, desde que limpos e com boa localização, para facilitar nossa locomoção sem precisar da moto. Já nos pontos principais da aventura, a escolha sempre é por hotéis um pouco melhores, mais aconchegantes, ou com belas vistas ou alguma coisa que seja mais atrativo, isto não significa que sejam caros, mas são de uma categoria melhor. Afinal, estas aventuras não são apenas nossas viagens de férias… São nossa forma de comemorar os anos juntos, são o presente de Natal e até de aniversários rsrsrsrsrsr

O Hotel Shehuen (http://shehuen.com/) foi escolhido por estas coisas, fica em um lugar privilegiado, com uma bela vista para o Lago Argentino e para a cidade de El Calafate, além de uma incrível vista dos picos nevados das montanhas da Patagônia. Da janela do quarto era possível ver o lago, escolha feita a dedo. Sua localização não é tão boa, pois o centro movimentado fica a uns 2 km, com direito a ladeiras, mas vale a pena, ele é aconchegante, muito arrumado, tem uma equipe fantástica, cuidadosa e é muito bonito e bem decorado. Tudo isso por uma diária de 112$ (foi cerca de R$180,00, valor menor que outros hotéis, menos interessantes).

Decidimos chamar um táxi para nos levar até o centro, Jorge estava cansado de andar de moto! E na América do Sul (exceto no Brasil, é claro) andar de táxi é barato e prático.

 

Fomos caminhar um pouco pelas ruas principais, fomos até La Aldea de Los Gnomos, uma mistura de lojinhas (caras, melhor comprar em outros pontos da cidade), restaurantes e cafés. Ponto imperdível da cidade.

Andamos pela avenida principal, conhecendo um pouco de El Calafate, até que encontramos uma pizzeria-cafe-bar muito legal, o Pietros, ele tem uma decoração com fotos, utensílios de cafeteria e de bar, bem antigos. Vale a pena conhecer!!! Decidimos pedir um lanche cada um, só não tínhamos ideia do tamanho… rsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsr
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
El Calafate é uma cidadezinha localizada nas margens do Lago Argentino (lago de águas glaciares), na Província de Santa Cruz, no meio da Patagônia Argentina, famosa por ser o ponto mais próximo do Glaciar Perito Moreno (que vocês irão conhecer em breve). A cidade, com cerca de 21 mil habitantes, vive em torno do turismo e tudo é preparado para receber bem. É uma cidade acolhedora e muito, muito arrumada, com temperaturas baixas, mesmo no verão, que, normalmente não passa de 19º, nós experimentamos 13º.Seu nome vem do arbusto Berberis microphylla, ou Calafate, típico da região. Deste arbusto nascem pequenas frutas, das quais se fazem doces, geleias e produtos de beleza (seu perfume é incrível e seu sabor também).

Depois do almoço fomos conhecer o Museo El Calafate ou Centro de Interpretacion Historica El Calafate (http://www.museocalafate.com.ar/) que é “una muestra permanente de historia natural y humana de los últimos 100 millones de años en la Patagonia Austral. Allí desarrollamos la evolución de tres grupos animales fascinantes: los Dinosaurios, los Mega mamíferos y los Humanos”. Vale a pena a visita, mesmo que seja uma passagem rápida, pois é uma viagem pela história da evolução humana. Não deixe de visitar a sala em homenagem aos ancestrais: uma incrível emoção!
 
 

Nas nossas andanças pela cidade, nos deparamos com belas paisagens, repleta de lindas e coloridas flores, e conhecemos o pássaro característico desta região, o Bandurria.

 
 

 

 

 

Também fomos conhecer a Intendencia do Parque Nacional dos Glaciares (http://pt.miraargentina.com/informacion-turistica/intendencia-de-parque-nacional-los-glaciares), uma espécie de Prefeitura responsável por administrar e cuidar do Parque.

E para terminar os passeios do dia, nada mais gostoso que uma torta de frutas vermelhas, em La Aldea de los Gnomos, na Chocolateria Abuela Goye (http://www.abuelagoye.com.br/).  Vocês sabiam que Salvador é uma das poucas cidades que tem a franquia?

 

No final do dia… ou quase no final, aproveitamos para relaxar de um dia tão agitado e para curtir um pouco do Hotel Shehuen, de sua bela vista, de seus saborosos vinhos e do fato de estarmos quase “en el fin del mundo”.

 

Curiosidade: nesta época do ano (Dezembro), o sol por estas bandas acorda por volta das 5h e se põe em torno das 22h, o que significa um dia gigante para aproveitar!!!!

Para conhecer mais:

http://www.parquesnacionales.gob.ar/areas-protegidas/regionpatagonia/pn-los-glaciares/

 
Assista ao vídeo com as imagens da nossa chegada à El Calafate e nossos primeiros passeios pela cidade.